Desalojado pela chuva, coveiro passa a morar em cemitério de Petrópolis

O que passa na cabeça de quem, por ofício, joga terra sobre os amores de alguém? Mário Rodrigues de Souza, 67, tenta não pensar em nada. “Se pensar fico doido, viro as costas e vou-me embora”, responde o coveiro mais antigo do Cemitério Municipal de Petrópolis, onde há congestionamento de sepultamentos e contratação de mão de obra extra para a abertura de covas rasas para as vítimas do maior temporal da história da cidade.

Mário não sabe exatamente quando começou na profissão, mas lembra que foi há “mais de 40 anos”, quando, recém-contratado como calceteiro da secretaria de obras do município, acabou transferido temporariamente para o cemitério. O tempo passou, Mário foi ficando. “Não é por apego, mas me acostumei. Faço enterro de homem, mulher, gente idosa, o que for preciso. Só não gosto de enterrar criança, isso não. Porque a gente sente como se fosse da gente”, diz ele, que não tem filhos. “A morte devia ser só para os bem velhos, porque eles já viveram o que tinham que viver.”

Por causa da extensão da tragédia das chuvas, que, de acordo com os números oficiais, já deixou mais de 170 mortos, o grupo de coveiros combinou não fazer exigências e esticar a jornada diária enquanto for necessário, uma forma de demonstrar solidariedade num momento tão devastador. Antes, em dias mais calmos, o último sepultamento acontecia às 16h30; agora, passa das 18h. O intervalo para o almoço não dura mais de 30 minutos.

“É nessas horas que as pessoas mais precisam da gente, e o que for preciso a gente faz”, explica Mário, “ex-forrozeiro” que trocou os bares e os bailes pelo templo da Igreja Universal do Reino de Deus no Morro do Pinto, no bairro do Caxambu, onde mora.

Há dez anos, ele parou de rodopiar pelos salões e botequins. Depois que entrou para a igreja, Mário não encosta mais a boca no álcool. Mas é exceção na equipe de 14 coveiros que, após o expediente, costuma dividir litros de cerveja gelada e doses de bebida quente nos bares das redondezas. Há uma explicação para o hábito.

Choro no canto “A gente bebe para esquecer as pedreiras, porque essa vida não é fácil e anda cada dia mais difícil”, diz o encarregado Marco Antonio de Oliveira, 54, espécie de coveiro-chefe da equipe de Petrópolis que, entre os muitos momentos difíceis recentes, fez o enterro de quatro pessoas da mesma família — três crianças, todas lado a lado. “Às vezes, a gente acaba chorando, meio quieto, no canto, sem alarde, porque o nosso papel não é esse, não é isso o que esperam de nós e não é para isso que estamos aqui”, diz.

Outro componente dramático atravessou a rotina de Marco na última terça-feira (15), quando uma barreira interditou o caminho para o conjunto popular do bairro Sargento Boening, onde ele dividia com a mãe, Hilma Lúcia, 85, um apartamento pequeno. Separado da mulher e com os três filhos já adultos, Marco passou a morar, “e só Deus sabe por quanto tempo”, no refeitório dos funcionários do cemitério, entre os túmulos. Com Alzheimer, dona Hilma foi para a casa de uma filha.

“A vida podia estar melhor? Podia, e eu bem que queria. Mas podia estar pior, também. Então, reclamar para quê? Vamos em frente”, diz. Marco prefere não pedir abrigo aos parentes ou amigos, “porque lugar bom é a casa da gente, e, enquanto não volto para a minha, vou ficando entre os mortos”. No refeitório sobre a administração do cemitério, há cama, mesa, banheiro e a companhia das vira-latas Maia e Pretinha, que adotaram o coveiro-chefe como tutor. “Está de bom tamanho. O que me falta é uma TV”.

Desde a infância, Marco tem os mortos como vizinhos. Nascido e criado na Comunidade Oswaldo Cruz, também conhecida como Canto do Cemitério, colada às quadras de jazigos, ele usava os espaços entre os túmulos para soltar pipa e, mais tarde, namorar.

O domínio geográfico do lugar levou Marco a ficar por ali. Já são 28 anos. Foi no Canto do Cemitério e na Vila São José, outra comunidade vizinha, que a prefeitura de Petrópolis recrutou 60 pessoas para uma frente emergencial para a abertura de covas rasas para as vítimas mais pobres da enxurrada, cujas famílias não possuem sepulturas. Cerca de cem covas já foram abertas em uma encosta. Bem em frente, dois barrancos despencaram na semana passada. Ninguém foi atingido.

Nos últimos dias, o movimento entre as quadras do Cemitério Municipal tem sido intenso. No fim da tarde de domingo (20), em menos de meia hora aconteceram três enterros na encosta das covas rasas. Na véspera, quando ocorreram 51 sepultamentos, houve fila de espera, segundo Luiz Henrique Pércia, 39, diretor da Secretaria de Segurança e Ordem Pública da prefeitura e supervisor do local.

Como o cemitério é cortado por uma rua estreita e de mão dupla, em que também passam carros, ônibus e caminhões, as funerárias montaram um cronograma para evitar que o fluxo de caixões dê um nó no trânsito.

“Por causa da demora na localização e na liberação pela perícia, os corpos precisam ser sepultados o quanto antes, com velórios cada vez mais curtos”, afirma. O ritmo atropela a dor de parentes de vítimas e de quem trabalha perto da morte.

 FONTE: Uol Notícias

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