Só os ricos poderão escolher se morrem ou vivem

Um debate pra lá de futurista revelou algumas tendências. As ideias são inusitadas, mas completamente plausíveis

Ricardo Abramovay, professor sênior de economia da USP e os colunistas do TAB Uol, Lidia Zuin e Michel Alcoforado, debateram como a tecnologia muda até mesmo nossa forma de encarar a morte.

É possível que a tecnologia nos permita viver para sempre. A questão que dividiu as opiniões dos colunistas é se vamos querer viver para sempre. Para a futurista Lidia Zuin, muitos irão querer viver para sempre, mas nem todos conseguirão — e isso é um problema. “A questão da vida estendida pela tecnologia pode ser uma das questões mais perigosas do século. Porque, enquanto for caro, será possível que apenas os ricos vivam pelo tempo que quiserem”, disse

Já para o antropólogo Michel Alcoforado, as pessoas não irão querer viver para sempre, pois a tecnologia trouxe muitas incertezas para o futuro. “Eu não acredito que, em um mundo no qual as taxas de suicídio só crescem, as pessoas vão querer a imortalidade”, diz. Para ele, se nem mesmo tivermos a certeza da morte, nossas relações perdem sentido e a vida se torna um tédio.

Não faltaram referências para discutir o que vai ser feito do fim. O futuro, para Alcoforado, está nas letras de MC Marcinho: “Nem melhor, nem pior — apenas diferente”. Zuin lembrou da animação “Coco”, dos estúdios Disney, centrada no tema da morte para a cultura mexicana.

Para ela, temos três mortes ao longo da vida: quando percebemos que vamos morrer, quando nosso corpo morre e quando somos esquecidos. Essa última morte, no entanto, talvez não exista mais na internet — uma vez que sempre deixamos rastros digitais. É por isso que Alcoforado defendeu o direito de ser esquecido — o que, em última instância, também é um direito à morte. “O principal trunfo da morte é o direito de te esquecerem. Quais possíveis mortes teríamos ao longo da vida, de que a tecnologia nos priva?”.

O nosso direito a ser esquecido passa também pela questão do quanto nossos dados são explorados, quem detém o monopólio dessas informações e como isso impacta nossa sociabilidade .

Nossos comportamentos estão sendo programados “A capacidade de quem controla as máquinas interferir nos comportamentos sociais está crescendo de maneira exponencial, sem que exista qualquer tipo de governança global quanto a isso. E isso se dá principalmente pela economia de dados”, explicou Abramovay.

É por isso que o processo de coleta de dados deve se aprofundar. Dados pessoais serão coletados e organizados de forma cada vez mais intensa em uma tentativa moldar comportamentos por governos e empresas. É o caso do Cadastro Base do Cidadão, do governo federal, que pretende até mesmo reunir dados biométricos — como forma de andar, formato da face ou íris dos olhos — para reconhecer a identidade de cada um.

“Nós estamos vivendo em uma sociedade de vigilância. A legitimação da sociedade de vigilância é imensa e está se ampliando. Em um país com 60 mil assassinatos por ano, é claro que, na consciência social dominante, nada é melhor do que ter câmera por todo canto para detectar bandidos”, comenta o professor. Ele ressalta que a invasão não é só da privacidade individual, mas também social. “Essa invasão atinge nossa coletividade, nossa maneira de ser”, disse.

Para o economista, os dados também modificam as formas com as quais as pessoas entendem o preço, ou o valor das coisas. “Em uma economia de dados, você sabe de antemão o que as pessoas querem. O futuro da economia global baseada é um futuro em que o mercado como conhecemos vai ser profundamente transformado”, diz “O grande tema dos próximos cinco anos é ver o que a gente pode fazer e o que a gente deve fazer”, diz Abramovay.

Ele defende que é necessário contestar mais modelos de negócios e investidas científicas de empresas digitais, governos e pesquisadores, em busca de um debate sobre o que é ético para o futuro — tanto em tecnologia quanto em avanços científicos.

Fonte: TAB Uol

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