A pandemia de tristeza

O distanciamento social está nos forçando a ficar separados de amigos e familiares. Mas como ajudar a si e aos outros emocional, social e espiritualmente?

Morte e tristeza andam de mãos dadas, é claro. Milhares de pessoas já morreram de COVID-19 em todo o mundo. Essas são perdas irreparáveis para familiares e amigos que precisarão de muito apoio e empatia nos próximos meses.

No entanto, o que impressiona neste momento é que o vírus está ameaçando cada pessoa na Terra com inúmeras perdas de todo tipo. Nomeie algo com o que você se importa ou que dê sentido à sua vida e com toda a certeza, nesse momento, esse vínculo está negativamente afetado ou ameaçado de alguma forma pelo corona vírus.

O distanciamento social está nos forçando a ficar separados de amigos e familiares. Os eventos pessoais foram adiados ou cancelados, por isso não podemos nos reunir para as celebrações e rituais mais significativos da vida, desde batismos e aniversários a casamentos, festas de aniversário e funerais.

Como seres humanos, sempre que aquilo que amamos está em risco, prejudicado ou cortado, nós naturalmente sofremos. Luto é tudo o que pensamos e sentimos dentro de nós quando isso acontece. Sentimos choque e descrença. A soma total de todos esses e quaisquer outros pensamentos e sentimentos que estamos enfrentando como resultado da pandemia é nosso pesar.

Mas como ajudar a si e aos outros emocional, social e espiritualmente?

Diante desse cenário, para buscar palavras e pensamentos positivos, fui conversar com Dr. Alan Wolfelt, um dos maiores especialistas em luto no mundo. Transcrevo abaixo o que ele me contou:

“Há algumas coisas importantes a entender sobre a dor pandêmica.

Primeiro, é normal e natural. É simplesmente uma parte do nosso amor e apego.

E segundo, o luto responde à consciência, atenção e expressão.

As pessoas se sentirão melhores se chorarem. Luto é ter consciência do seu sofrimento, dar a atenção que ele precisa e merece, e sobretudo expressá-lo.

Todos já ouvimos falar muito sobre como cuidar de nós mesmos fisicamente com esse vírus, mas pouco vi sobre saúde emocional, social e espiritual. Durante esse período de grande tristeza, o luto é a chave para esses pilares do autocuidado.

Quando sentimos a dor emocional do nosso luto por coronavírus, podemos sintonizá-lo e permitir que ele nos ensine sobre o que realmente estamos preocupados, tristes, zangados etc. E então podemos expressá-lo. Podemos conversar com outras pessoas sobre isso, em nossa casa, por telefone ou online. Podemos escrever sobre isso em um diário. Podemos ouvir música ou assistir filmes que nos ajudam a acessar, entender e compartilhar nossos sentimentos. O luto dessa maneira ajuda a amenizar a tristeza e nos dá a liberação emocional de emergência e o sustento de que precisamos para sobreviver.

E quando se trata de saúde espiritual, agora é um momento especialmente ressonante para cuidar de sua alma. Um fator redentor do isolamento forçado é que ele cria a oportunidade de contemplação e prática espiritual. Em tempos de perda, quase sempre nos perguntamos por que as coisas acontecem como acontecem.

Naturalmente, questionamos o significado da vida em geral e o significado de nossa própria vida em particular. Voltamos nossa atenção para nossas crenças e valores mais profundos. Conversamos com Deus ou nos perguntamos sobre Deus ou ficamos com raiva de Deus.

Se você lutou com crenças, valores, significado e objetivos de vida durante a pandemia, está experimentando o aspecto espiritual do luto. E a melhor maneira de cuidar de seu espírito agora é ser intencional, dando-lhe tempo e atenção. Eu recomendo gastar pelo menos 15 minutos por dia em práticas espirituais. O que quer que o ajude a entrar em contato com sua centelha divina – faça isso. Para algumas pessoas, isso pode ser meditação ou oração. Para outros, pode ser ler um texto espiritual, fazer afirmações, participar de um evento religioso ou espiritual on-line, praticar ioga, escrever em um diário ou passar algum tempo observando a natureza ou andando ao ar livre.

Não há dúvida de que este é um momento desafiador para se estar vivo, mas também é um momento em que nossos recursos coletivos nunca foram maiores e mais capazes. Então, vamos ser abertos, honestos e gentis – conosco e com o outro.

 Sugestões para circunstâncias especiais:

 Solidão – Minha melhor sugestão aqui é chegar pró ativamente aos outros de todas as maneiras, sempre que puder, para o benefício deles e o seu. Se você ou alguém que você conhece está particularmente em risco de solidão agora, peça assistência. Encontre amigos, familiares e vizinhos que estejam dispostos a criar uma equipe de suporte. A maioria das pessoas fica feliz em ajudar, mas precisa de sugestões sobre como.

Se você deseja ajudar um idoso isolado, faça um brainstorming com outras pessoas sobre as maneiras pelas quais você ainda pode oferecer conforto e apoio seguros. Por exemplo, entregas de comida, livros e anotações pessoais podem ajudar. Telefonar uma ou duas vezes por dia pode fazer muita diferença. Seja criativo e prático em seus esforços e, acima de tudo, ofereça contato frequente e consistente.

Não podemos oferecer substituto igual para a proximidade física neste momento crucial da vida de uma família. Mas podemos fazer o possível para transmitir nosso amor. Por exemplo, é possível escrever uma carta para a pessoa que está partindo e pedir a alguém que tenha acesso a pessoa que a leia em voz alta. Fazer uma gravação em vídeo, como se estivesse falando diretamente com a pessoa, é outra ideia. Pedir que uma música especial seja tocada, que objetos ou flores especiais sejam colocados na sala é uma terceira ideia.

Se um funeral público não puder acontecer logo após o falecimento, talvez uma homenagem possa ser agendada daqui a alguns meses. Eventos virtuais também podem ser uma boa ideia e um bom conforto.

Por causa dessa incerteza, nossa dor é em parte antecipatória neste momento. Enquanto já estamos sofrendo fechamentos, cancelamentos e limitações muito reais, também estamos, normalmente e naturalmente, antecipando os sofrimentos desconhecidos que virão. Eles também fazem parte do nosso amor.

Espero que possamos emergir dessa pandemia viral e de luto, uma comunidade mundial mais consciente, coesa e solidária. Que esse luto coletivo nos forme e nos transforme em melhores versões de nós mesmos”.

 Fonte: Vamos Falar sobre Luto – Por Gisela Adissi com referencia a Alan D. Wolfelt,  autor e educador sobre os tópicos de companheirismo e cura na dor.

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