Corpos de bebês yanomami enterrados sem o conhecimento das mães são encontrados em Boa Vista

Para as mães das crianças, os filhos estão desaparecidos. As valas não estão identificadas e os casos serão investigados pelo MPF

A agência de jornalismo independente e investigativa Amazônia Real localizou os túmulos de três bebês, todos do sexo masculino, da etnia Yanomami, sendo dois do subgrupo Sanöma.

As crianças recém-nascidas morreram entre os dias 29 de abril e 25 maio em hospitais públicos de Roraima por Covid-19 ou suspeita do coronavírus. Para as mães das crianças, os filhos estão desaparecidos. Elas não foram informadas pelas autoridades de saúde que os corpos dos bebês estão enterrados em sepulturas comuns no Parque Cemitério Campo da Saudade, em Boa Vista, na capital de Roraima.

O corpo de um quarto bebê Sanöma, que nasceu prematuro e tinha hidrocefalia, foi encontrado pela reportagem no Instituto Médico Legal (IML).

Em entrevista à agência, Dario Kopenawa Yanomami, diretor da Hutukara Associação Yanomami (HAY), disse que as mães das crianças estão sofrendo muito pela morte dos filhos e querem que os corpos sejam retirados dos túmulos do cemitério de Boa Vista para levá-los de volta ao território indígena e submetidos ao ritual funerário da cultura Yanomami nas aldeias. Ele disse que as mães não sabiam dos sepultamentos e nem mesmo foram consultadas pelas autoridades de Roraima. “Para elas, os filhos estão desaparecidos”, diz.

 “Sofri para ter essa criança. E estou sofrendo. Meu povo está sofrendo. Preciso levar o corpo do meu filho para a aldeia. Não posso voltar sem o corpo do meu filho”. A entrevista teve uma grande repercussão e a hashtag #criançasyanomami foi parar no topo dos trending topics do Twitter na sexta-feira 27.

 

Onde estão as crianças Yanomami

 

Boa Vista, capital de Roraima, tem pouco mais de 280 mil habitantes e dois cemitérios: um público e outro privado. Após a entrevista com Dario Kopenawa Yanomami, que disse que as mães desconheciam a localização das crianças Yanomami, a reportagem da Amazônia Real foi a campo, tomando o devido cuidado em relação à segurança da prevenção da Covid-19, para encontrar os túmulos dos bebês da etnia.

Foram três dias de para confirmar o paradeiro dos corpos das crianças.

A reportagem ainda localizou o corpo do quarto bebê Yanomami no Instituto Médico Legal (IML) de Boa Vista. Segundo o instituto, o corpo pode ser trasladado à Terra Indígena Yanomami por não colocar a população em risco de contaminação do vírus (testou negativo para Covid-19).

Já no cemitério Campo da Saudade a situação de remoção dos corpos é mais complexa: local. “Só é possível retirar corpos sepultados por via judicial ou se aguardando o tempo mínimo para a exumação, que é de três anos para adultos e dois anos para crianças e recém-nascidos”, disse o administrador. Ele afirmou que os três bebês yanomami foram enterrados em sepulturas cedidas gratuitamente por intermédio da Secretaria do Trabalho e Bem Estar Social de Roraima.

Não é a primeira vez que pais da etnia Yanomami não são informados pelas autoridades de saúde sobre os enterros de seus filhos em cemitérios de Boa Vista.

O primeiro caso do novo coronavírus entre os Yanomami foi registrado em um jovem de 15 anos, no município de Alto Alegre, região de grande incidência de garimpeiros no rio Uraricoera, na região Leste de Roraima. Ele sentiu os primeiros sintomas da doença em 18 de março, passou por diversos atendimentos, chegando a receber alta médica, e só foi testado para a Covid-19 em 6 de abril, morrendo três dias depois no Hospital Geral de Roraima, na capital.

Os pais do jovem Yanomami não foram informados pelas autoridades do Ministério da Saúde sobre o sepultamento do filho, que aconteceu na noite do dia 9 de abril no Parque Cemitério Campo da Saudade, em Boa Vista.

 

O que dizem as autoridades

De acordo com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), a Portaria Conjunto Nº 1, de 30 de março de 2020, estabeleceu procedimentos excepcionais para sepultamento e cremação de corpos durante a situação de pandemia do coronavírus em razão de exigência de saúde pública. A portaria considerou “a necessidade de providenciar o sepultamento em razão dos cuidados de biossegurança, a manutenção da saúde pública e respeito aos legítimos direitos dos familiares do obituado providenciado a inumação (enterramento)”. Em todo o país, as famílias são comunicadas pelos hospitais sobre a morte dos parentes. Os enterros são realizados na presença de poucos familiares. No caso dos indígenas Yanomami, a informação sobre os enterros não tem sido realizada e é recorrente.

A Fundação Nacional do Índio (Funai), quando se posicionou sobre o enterro do jovem de 15 anos sem consentimento dos pais Yanomami no cemitério de Boa Vista, disse que estava em contato com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e enviou uma nota à reportagem.

“A Funai conversou com o Dario Yanomami, que pediu esclarecimentos sobre se o corpo poderia retornar à comunidade para os rituais funerários. A Fundação informou que, por medidas de saúde pública, não poderia haver os rituais funerários e que o corpo se encontra sob responsabilidade da Anvisa”, disse o órgão indigenista.

A Funai disse, ainda, que estava realizando o diálogo com as lideranças indígenas explicando os motivos de não se permitir os rituais funerários neste momento em razão da pandemia.

Sobre a questão dos sepultamentos aconteceram sem o consentimento dos indígenas, causando-lhes sofrimento, a fundação disse: “a missão da Funai neste momento é sobretudo orientar os povos indígenas, levando informações no sentido de esclarecer e pacificar sobre o perigo de que o corpo volte neste momento à comunidade”.

Em Boa Vista, a Anvisa não se pronunciou sobre os enterros de Yanomami.

Procurado pela reportagem, o MPF de Roraima enviou uma nota informando que abriu um procedimento de investigação para garantir que as recomendações médicas e orientações dos especialistas da área de saúde sejam seguidas, mas que levem em conta o direito de luto dos povos indígenas em suas particularidades rituais.

“Foram realizadas reuniões com lideranças indígenas, defesa civil, vigilância sanitária, antropólogos e gestores da saúde, bem como emitidos pedidos de informação e apoio técnico, para garantir o respeito às práticas culturais indígenas tanto quanto possível no atual contexto de pandemia da Covid-19”.

O órgão disse que segue acompanhando todas as notícias de óbitos de indígenas, para garantir a identificação do corpo e posterior retorno à terra indígena quando for sanitariamente seguro e se assim desejar a comunidade de origem.

A Secretaria Municipal de Saúde, responsável, pelo Hospital da Criança Santo Antônio, onde três crianças do subgrupo Sanöma morreram informou que: “As crianças tiveram todo o apoio necessário e por se tratar de indígena yanomami”, disse a secretaria, informando que o sepultamento é de responsabilidade do Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami (Dsei-Y).

“Até o momento oito crianças indígenas testaram positivo para Covid-19 e, destas, três foram a óbito. Todos os procedimentos relacionados aos óbitos estão registrados no livro de ocorrência do serviço social do Hospital. As famílias das vítimas são acompanhadas pela coordenação indígena do Hospital até o momento da entrega do corpo para Dsei Yanomami”, disse a secretaria.

Procurado, Antonio Pereira, coordenador interino do Dsei Yanomami, subordinado ao Ministério da Saúde, não quis comentar sobre os sepultamentos das crianças Yanomami e Sanöma sem a anuência das famílias. O Dsei informou que 150 indígenas foram contaminados pela Covid-19 e registrou quatro mortes.

Já a estatística da Rede Pró-Yanomami e Ye’kwana diz que 168 indígenas foram infectados pelo coronavírus e cinco morreram – sendo três óbitos suspeitos. Dos casos confirmados, 80 foram dentro da Casa de Atendimento de Saúde Indígena (Casai-Y), em Boa Vista, e 24 casos registrados no território indígena, que está invadido por mais de 20 mil garimpeiros, segundo a Hutukara.

 

*Por Kátia Brasil e Emily Costa, da Amazônia Real

 

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