Um reflexão sobre a grandiosidade de partir

O assunto, morte, sempre nos ronda. A recente morte do Gugu Liberato nos trouxe a reflexão sobre algo que muitos de nós pensamos em fazer, e que muitas famílias não completam nosso desejo: a da doação total dos órgãos.

Cerca de 50 pessoas foram beneficiadas pela doação dos órgãos do Gugu, um número muito expressivo. Espero que este gesto tenha tocado, não só a mim, como doentes terminais e familiares. O que nos custa doar o que não mais nos servirá? Se existe vida após morte, certamente não será nesse corpo. Ou você já viu fantasmas precisando de rim e coração? Seja virando anjo ou estrelinha, tenho absoluta certeza que só o espírito nos bastará.

Nesses dias foi impossível não lembrar de uma querida amiga, falecida em 2017, Silvia Paoliello. Ela nunca me enganou! Naquele corpo frágil, escondia a força do bem, a nobreza dos determinados, a suavidade da água que no vai e vem, lapida pedras.
Silvia teve câncer e já no final da vida, ciente de tudo, perguntei a ela como era receber um diagnóstico com tantas metástases? Me respondeu que nunca havia se revoltado nem questionado, como é comum nesses casos. Disse que não era melhor, nem pior que ninguém. Nem a primeira, nem a última a ter câncer. E assim partiu, nos deixando numa manhã fria de domingo.

Voltando do breve velório, a única opção que tive, foi me abraçar com a manta de quilt que ela havia feito pra mim. Na sua doença, Sílvia nos acolhia. Saíamos sempre de lá confortados, em vez de confortá-la. Em sua extrema bondade, sequer me deixou entristecer pela sua perda. Suas falas e a riqueza da lição de vida que me destes em tão poucos anos de uma amizade tão forte, me alimentaram.

A última coisa que me ensinastes, Sílvia, junto com a sua amorosa família, foi que podemos sim escolher como partir. E da forma nobre como viveu e adoeceu, se foi. Doou seu corpo à ciência, à humanidade, à UFMG, projeto Vida Após a Vida da Faculdade de Medicina, cujo contato é 31- 3409-9632.

E como se fazia antigamente, foi velada em sua casa, no seu próprio leito, envolta nos lençóis diários que a cobriam. Um vaso de margaridas na cabeceira, ao lado da Nossa Senhora que por ela zelou, e água fresquinha para quem tivesse sede. E coube a nós, que aqui ficamos, essa raça humana frágil, tão incapaz de grandes gestos, descobrir no singelo, que partir pode ser sim algo grandioso!

Mary Arantes para o programa Tarde.com

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