O que falam sobre a morte!

“Na maior parte das vezes os sábios falam dos costumes funerários pré-históricos nos seguintes termos:

‘Logo que as idéias religiosas nascem, aparecem as práticas funerárias’. (Mortilet.)

‘A religião, como atividade de grupo, se manifesta, em primeiro lugar, na Idade Neolítica. As anteriores populações de caçadores tinham professado as suas crenças nos valores espirituais e o homem de Neandertal enterrava, por vezes, os mortos de uma forma que indicava a preocupação numa vida futura.’ (Hibben.)

Diz-nos mais: ‘Os homens de Neandertal inumavam os mortos. Escavavam sepulturas (La Chapelle-aux-Saints, Moustier, La Ferrassie, Arcy-sur-Cure). Nesses túmulos havia oferendas, osso esculpido, sílex. É a prova do culto ao morto, do sentimento religioso, da crença na vida futura, etc.” – Ritos Estranhos no Mundo – Jacques Marcireau

“A consciência da morte é uma marca da humanidade. Nos sabemos que as primeiras materializações que nos permitem acompanhar o processo de hominização são instrumentos de sílex bruto e marcas de presença humana em um território. Entretanto, outras provas desse processo se adicionaram logo a estas primeiras, de uma maneira cada vez menos contestável: as sepulturas. Determinar as circunstâncias dentro das quais o homem começou a inscrever sua marca sobre o cadáver é uma empresa improfícua. Neste domínio, como em outros, as origens estão provavelmente perdidas. Mas o ‘homem’ de Neanderthal não somente enterra seus mortos: também os reúne às vezes, como na Gruta das Crianças perto de Menton. Os homens das cavernas de Carmel (40.000 anos), da ‘Chapelle-aux-Saints’ (45.000 a 35.000 anos), do Monte Circeo (35.000 anos) cavaram suas sepulturas e nelas depositaram seus mortos adultos, sentados, tornozelos e punhos atados, como fetos prometidos a uma segunda vida. As mais antigas sepulturas conhecidas (cavernas de Qafaz, em Israel) datam de cerca de 40.000 anos; as do homem de Neanderthal, entre 80.000 e 30.000 anos. Um interesse religioso ligado aos despojos humanos parece provável, embora as provas arqueológicas sejam ainda escassas (crânio de Mas d’Azil, com seus olhos postiços). A consciência da própria morte é sem dúvida uma das conquistas maiores constitutivas do homem: ‘não se trata mais de uma questão de instinto, mas já da aurora do pensamento humano, que se traduz por uma espécie de revolta contra a morte’.” – Tabu da Morte – José Carlos Rodrigues

“Há 95 mil anos, um grupo de Homo sapiens enterrou seus corpos em um abrigo rochoso conhecido como caverna de Qafzeh, localizada no que hoje é conhecido como Israel. Quando os arqueólogos escavaram a caverna em 1934, eles descobriram que os corpos não foram apenas enterrados; foram enterrados propositalmente. Alguns dos restos encontrados em Qafzeh mostram manchas de ocre vermelho, uma argila naturalmente tingida. Os arqueólogos acreditam que a presença do ocre significa que nós executamos rituais com os mortos bem no começo da história da espécie humana. Um dos esqueletos, uma criança de 13 anos, estava enterrada com as pernas dobradas para o lado de um par de chifres de cervo nos braços. Não entendemos o que essas pessoas pensavam sobre a morte, a vida após a morte e o cadáver, mas essas pistas nos dizem que elas pensavam alguma coisa.” – Confissões do Crematório – Caitlin Doughty

“Há um cemitério na Turquia que foi usado pelos homens de Neandertal há aproximadamente cem mil anos. Lá, impressões fossilizadas permitiram aos arqueólogos descobrir que os homens primitivos enterravam seus mortos em ataúdes de flores, indicando talvez que viam a morte como a ocasião de uma celebração como o trânsito dos mortos deste mundo para outro. Com efeito, túmulos encontrados em escavações muito primitivas em todas as partes da Terra nos dão testemunhos da crença na sobrevivência humana depois da morte.” – Vida Depois da Vida – Dr. Raymond A. Moody

“Foram os primeiros hominídeos a enterrar os seus mortos. Os hominídeos primitivos, como os animais geralmente fazem, simplesmente abandonavam seus mortos onde tinham caído e eram devorados por predadores, e o que sobrava apodrecia ali mesmo. O fato de os Neanderthal enterrarem os seus mortos preservando-os dos carniceiros, quando não da decomposição, demonstra que, de alguma forma, valorizavam a vida, que sentiam afeto e que se preocupavam com o indivíduo. Muitas vezes os mortos eram velhos e aleijados, o que prova que somente podem ter vivido aquele idade por causa do carinho das outras pessoas da tribo.

Mais ainda, frequentemente enterravam alimentos e flores junto com o cadáver e isso parece indicar sua crença de que a vida continuava em bases individuais depois da morte. E se sentia que a vida continuava depois da morte, isso pode indicar os primeiros sintomas do que podemos chamar de religião — um sentimento de que há algo a mais no Universo do que é aparente aos sentidos.” – Cronologia das Ciências e das Descobertas – Isaac Asimov

“Um outro, Shanidar IV, parecia ter sido enterrado, e os resultados da análise do solo do túmulo convenceram Solecki de que Shanidar IV fora sepultado com flores. Ele interpretou o achado como evidência da profunda espiritualidade do homem de Neandertal.

‘De repente, precisamos encarar o fato de que a universalidade do gênero humano e o amor à beleza ultrapassavam as fronteiras da nossa própria espécie’, escreveu ele num livro sobre suas descobertas, Shanidar: The First Flower People [Shanidar: o primeiro povo das flores]. Algumas conclusões de Solecki têm, desde então, sido contestadas ― parece mais provável que as flores tivessem sido levadas por roedores em busca de abrigo e não por parentes de luto ―, mas suas ideias tiveram grande influência.” – A Sexta Extinção – Elizabeth Kolbert

“Desde os tempos mais remotos, a morte e a ideia de uma vida depois dela preenchem o pensamento do homem e o levam a dar respostas religiosas, filosóficas e artísticas para aquilo que não tem resposta racional. Rejeitar essa meditação, essa fantasia e questionamento é, do ponto de vista psicológico, falta de instinto, uma arbitrariedade contra as raízes da alma, paga frequentemente muito caro: a morte continua sendo uma obscuridade temida e se converte em uma inimiga.” – Ensaios sobre a Psicologia de C. G. Jung – Aniela Jaffé

 

Artista: Émile Friant

 

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