Conheça a rotina da maquiadora de mortos

Quase ninguém entende o nome do ofício a que Enilda Freitas Schultz, 63 anos, se dedica há cerca de três décadas. Quando ela explica o significado do prefixo da palavra “necromaquiadora”, a primeira pergunta, em espanto, costuma ser a mesma:

— Você não tem medo?

Enilda repete a resposta:

— Os mortos não piscam o olho, não reclamam. É mais fácil do que com os vivos.

Proprietária de um salão de beleza por mais de 20 anos, a cabeleireira conciliou o trabalho com as duas clientelas por muito tempo. Bastava atravessar a Avenida Professor Oscar Pereira para transitar entre um e outro mundo: de um lado da avenida, cortava cabelos e aplicava tinturas no salão que levava o seu nome.

Do outro, nas Funerárias Reunidas, embelezava cadáveres. Chegou a maquiar a mesma cliente nos dois endereços. Preparou até o cadáver da própria mãe, quando recém começava a desvendar as peculiaridades da atividade. Enilda não buscou essa especialização — o convite veio até ela, em 1987.

Um funcionário da funerária vizinha perguntou se alguém da equipe do salão poderia reconstituir a face de uma menina de cinco anos atropelada por um caminhão sem freios. A esteticista aceitou e, na iniciação de improviso, foi observada pelo pai da criança em todo o processo. Ela voltou a ser requisitada eventualmente, até a maquiagem ser incorporada como um dos serviços permanentes oferecidos pela Reunidas no momento do óbito.

— No começo me impressionava com criança, o caixãozinho pequenininho, branquinho. Hoje não me impressiono com nenhum tipo de morte — assegura Enilda, que rejeitava refeições com carne nos primeiros tempos e agora procura desfazer qualquer eventual mal-estar com uma volta para admirar as vitrines da Avenida da Azenha.

A tranquilidade diante do fim alcançada na maturidade contrasta com o temor dos anos de juventude. Enilda jamais passava pela região da Oscar Pereira repleta de cemitérios e funerárias. Lembrava sempre uma história de assombração relatada repetidas vezes pelo pai.

Uma mulher, contava ele, havia tomado um táxi em frente a um cemitério. Depois de ela ter desembarcado no destino, o motorista percebeu um objeto esquecido dentro do carro. Ele então retornou ao local e pediu informações, dando as características físicas e de vestimenta da passageira. A resposta de um morador deixou o condutor em choque.

— Ele soube que ela havia morrido há muitos anos — recorda Enilda, rindo. — Costumo ouvir que os mortos puxam os pés, andam por aí. Os mortos não incomodam ninguém.

Enxergar a tarefa com naturalidade não isenta a profissional de sustos. Certa vez, Enilda atendia um menino quando sentiu o que classifica como um “congelamento na medula”, muito pior do que um “frio na espinha”: entrelaçadas sobre o abdômen, as mãos do garoto se soltaram, batendo com força e estrondo nas laterais da urna de madeira.

Em outro episódio, ela terminava de pintar as unhas de um cadáver quando percebeu uma pressão nos dedos — era o defunto, garante, impedindo-a de retirar a mão. “Bom, vivo não está”, cogitou, na tentativa de se tranquilizar. “Se estivesse vivo teriam visto no laboratório”, concluiu, pensando que uma possível ressurreição seria flagrada pelos colegas que executam a tanatopraxia (procedimento que retarda a decomposição). Verificou se o serviço de manicure estava bem feito e seguiu adiante.

Personalidade da morta dita cores

Enilda está sempre à disposição da funerária, a qualquer hora do dia ou da noite. Em 28 anos de profissão, teve de abandonar incontáveis festas de aniversário e ceias de Natal. Gosta de frequentar bailes da terceira idade, onde às vezes é forçada a largar pretendentes no meio da pista.

Quando é convidada para uma dança, acomoda o celular no decote da blusa, contra o peito, para sentir a vibração das chamadas e não perder nenhum cliente por conta da música alta. Ao sair, não revela o motivo da urgência.

— Tenho que ir para o meu plantão — avisa Enilda depois de atender ao telefonema.

— Você é médica? — questiona o par da dança.

— Não — resume ela, sem detalhes, ao correr para a porta.

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Responsável pela última etapa da preparação do corpo antes do traslado do esquife para o velório, Enilda verifica as orientações repassadas pelo agente funerário ao chegar. O falecido já está vestido e acomodado no caixão adornado com flores quando ela veste as luvas.

Há famílias que trazem de casa o batom, o perfume ou a peruca da preferência de quem se foi. A sessão de maquiagem é rápida com os homens, apenas uma cobertura fosca suavizando o aspecto cadavérico. Nas mulheres, Enilda se detém um pouco mais — é possível fazer a pintura padrão, bastante simples, ou a social, mais marcante, com rímel, sombra, delineador.

Ela diz analisar a personalidade do morto ao escolher as cores. Em um dos atendimentos da última semana, posicionou a maleta com uma variedade de tons de pó compacto, batom, sombra e esmaltes ao lado do caixão e avaliou a senhora a sua frente, uma paciente que não resistiu às complicações de um câncer.

— As mais festeiras têm maquiagem definitiva, como eu — exemplifica Enilda, que imprimiu traços permanentes no contorno dos lábios, ao redor dos olhos e nas sobrancelhas. — Esta devia ser uma senhora discreta, que gostava de cores claras — conclui.

Começa cobrindo com uma camada de pó as zonas escurecidas — marcas deixadas, provavelmente, pela pressão de aparelhos usados na internação hospitalar. Enfermidades arrastadas, diz Enilda, impõem ao doente uma expressão sofrida.

Para atenuar a palidez da pele, aplica blush. Tira o excesso da cobertura rosada com as mãos. Como tem prática com cabelos, vai além das obrigações para as quais é contratada: ajeita os fios grisalhos com um pente, vaporizando-os com fixador.

— Gosto de receber elogio.

Há dias em que Enilda está mais reflexiva, divagando sobre a identidade e a trajetória do morto. Já encarou vítimas de acidentes de trânsito, assassinatos com múltiplos tiros, crimes passionais executados à faca. Nos casos mais difíceis, utiliza uma massa restauradora para o preenchimento dos orifícios de ferimentos.

— Tem rico, tem pobre, e termina tudo na mesma coisa. O cheiro é o mesmo. A diferença entre vida e morte é só o tempo da palavra: você pode terminar de falar “vida” e já estar morto.

Enegrecidos, os lábios da senhora vitimada pelo câncer recebem então uma camada de base, depois pó compacto. O batom finaliza o trabalho no rosto. Nas unhas, a pintura com um rosa antigo é realizada nas mãos já entrelaçadas, o que dificulta o alcance do pincel. A esteticista tenta não borrar os dedos da idosa, evitando ter de usar acetona. Minuciosa, colore até o polegar direito — na posição em que repousa sobre a barriga, o dedo está encoberto, nem se pode vê-lo.

— Se alguém conferir, vai ver que estão todos pintados — explica Enilda.

Ela se afasta um passo. Satisfeita, aprecia o resultado:

— Mudou? Total. Parece que está dormindo.

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